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Archive for agosto \13\UTC 2009

Comecemos pelo título: Niétotchka é um diminutivo carinhoso de Ana, Niezvânova significa, ao pé da letra, criatura sem nome. Daqui em diante já podemos ter idéia do desgaste que a personagem Niétotchka sofrerá durante todo o “romance”. Deixem-me explicá-los porque “romance”. Niétotchka Niezvânova é um romance inacabado, quase em formato de novela ou romance-folhetin. É bom que o leitor tenha conhecimento logo disso, pois é realmente frustrante chegar ao término do romance sem um final estabelecido. Cabe ao leitor imaginar, através de sua interpretação, o final do romance.

Mas defeitos à parte, Niétotchka Niezvânova (daqui em diante estou dando CTRL+V no nome do livro =P) é um romance exemplar pela sua narrativa rápida (Rápida mesmo! [Já repararam que todos os livros novos “tem” narrativa rápida? é só olhar a capa de trás de todos os livros.. parece que está na moda ter uma narrativa rápida, ou isto parece ser bom… enfim, voltando ao livro…]). Sim, a narrativa rápida é um traço marcante de Dostoiévski. Seus períodos são curtos e a descriação dos ambientes, mais uma vez, fica a cargo do leitor, devido a pouca descriação.

O que mais me impressionou ness romance foi a incrivel habilidade de Dostoiévski de descrever a personalidade de Niétotchka. A ultra-sensibilidade da protagonista consegue angustiar e transmitir com perfeição seu sofrimento. Niétotchka Niezvânova é um romance bem tristinho em suas bem definidas três partes (na versão de 1849, depois o romance foi dividido em 7 capítulos): Infância, Vida nova e O mistério.

Minhas partes favoritas foram as duas primeiras. Na Infância nos temos como principais personagens Niétotchka e seu Padrasto, Iefmov. É nessa parte que a triste vida de Iefmov é contada através do olhos da pequena Niétotchka. O amor paternal de Niétotchka muitas vezes se confunde com o amor carnal, deixado propositalmente bem ambíguo por Dostíevski, em especial essa frase que Niétotchka pronuncia me marcou:  “[meu pai] via que eu estava pronta a tudo fazer por ele, e Deus sabe o quanto significava para mim então esse ‘tudo’…” (Cp 2)

A segunda parte temos a Vida nova de Niétotchka, agora adotada por uma família Nobre. Primeiro, deixem-me ser bem claro: não acredito na homossexualidade Niétotchka, como muitos afirmam. Apesar desta nutrir um amor (quase) platônico por Kátia, em nenhum momento observamos maldade ou malícia em suas palavras. Tudo transcorre com extrema naturalidade e, mais uma vez, Dostoiévski deixa bem ambígua essas passagens. Creio que tal afirmação sobre a sexualidade de Niétotchka só poderia ser feita com o complemento do romance, enfim…

Nota final: 4,5

Realmente nao posso dar uma nota maior a esse livro. Em fato, fiquei em dúvida a dar 4 ou 4,5. (lembrando que a nota máxima é 5) O romance traz excelentes passagens, mas a 3ª parte é um pouco fraca e o sentimentalismo exarcerbado de Niétotchka começa a tornar-se banal e superficial. Não consigo ver essa obra de forma a durar mais de 500 páginas, para mim, infelizmente, já estava bem próximo do final quando foi truncado.

CITAÇÕES(nao consegui sublinhar todas as passagens que eu queria, ainda faltam muitas outras :/):

“Há momentos em que nossa mente sofre muito mais do quê em anos inteiros” (pag. 69)

“Tinha vontade de gritar, mas o grito morria em meu peito” (pag. 74)

“A verdade cegou-o com seu brilho intolerável, e o que era mentira tornou-se mentira para ele também.”(pag. 82)

“Todas as manhãs, Kátia acercava-se de meu leito,sempre com um sorriso, com a risada que não saia dos lábios.” (pag. 99)

“O que permitia num dia era, de repente, proibido no seguinte, sem qualquer razão, e a criança via, então, ferido o seu sentimento de justiça…” (pag. 115)

“É possível que, pela primeira vez, o sentimento estético houvesse despertado em mim, e que se manifestasse revelado pela beleza; e talvez seja esta toda a causa do meu amor.” (pag 116)

“O principal defeito da princesa, ou melhor dizendo, o traço dominante de seu caráter […]” (pag. 116)

“Calaram-se de súbito todos os meus devaneios, todos os meus arroubos, e a própria capacidade de sonhar desapareceu, comose me dominasse uma espécie de debilidade.” (pag. 168)

“Buscava a solidão.” (pag. 168)

“Há momentos em que todas as forças da mente e da alma, numa tensão  doentia, como que se inflamam com a chama brilhante da consciência, então algo de profético surge em sonho à alma abalada, que parece enlanguescida com o pressentimento do futuro, experimentando-o antecipadamente. E há uma grande vontade de viver, todo o nosso ser pede para viver, e, inflamado com a esperança mais ardente, mais cega, o nosso coração parece desafiar o futuro, com todo o seu mistério, com todo o desconhecido, ainda que em tempestades e tormentas, contanto que isso seja vida.” (pag. 169)

“Recebi demais; o destino enganou-se; agora, ele está corrigindo o erro e tira-me tudo.”(pag 176)

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