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Posts Tagged ‘crônicas’

Lótus

Lótus era um senhor admirável. Vivia num enorme palácio feito completamente de paredes de cristal. Tal construção permitia ver tudo o que se passava nos cômodos do Palácio e, num determinado ponto, era possível cruzar ortogonalmente de lado para o outro apenas com o olhar. A cada semana, mantinha lá um de seus conselheiros, e, do outro lado, ficava ele. Vez ou outra Lótus pedia em tom apenas um pouco mais elevado para que seu conselheiro viesse até ele. Não tinha nada a dizer ou a pedir ao conselheiro, o fazia somente pelo prazer de saber que poderia falar e que qualquer pessoa, do outro lado do palácio, estaria escutando as palavras do Rei.

Não obstante, nenhuma das paredes tocava o teto e o teto tinha uma forma convexa, que permitia que até mesmo o menor dos sussurros se alastrasse de um quarto ao outro. O palácio era construído numa pequena colina, o que permitia de dentro dele observar quem quer que estivesse nos jardins de Lótus. Não haveria conspiração no palácio. Não haveria traição. Não haveria segredos.

As pessoas temiam Lótus porque ele sabia de tudo e de todos. Obrigara as pessoas do palácio a não usar nenhuma vestimenta além das necessárias para cobrir seus sexos. Os lençóis eram de renda, o que permitia ver o que se passava por debaixo deles. As divisões dos banheiros eram feitas de papel. Embora não se pudesse ver quem estava dentro dele, era possível observar sua sombra, permitindo traçar uma breve visão do que acontecia por lá.

O senhor sabia que a mente das pessoas não era assim tão visível. Sabia que poderiam conspirar, trair e matar a qualquer momento. Uma vez forçou uma pobre cobaia a digerir pequenos pedaços de vidros, cristais e diamantes na tola ilusão de tornar o homem mais transparente. Não conseguiu. Pelo menos seus atos, suas palavras e suas expressões Lótus conseguiria ver em seu palácio. Morreu aos 32 anos, com apenas 2 anos de reinado. O palácio de cristal foi destruído, não servia para nada.

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