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LÉVY,Pierre. O que é o virtual? São Paulo: Editora 34, 1999.

“O que é o virtual?” é uma excelente obra do grande filósofo da Informação Pierre Lévy, que desenvolve de forma bem argumentada questões sobre Virtualização, atualização, Potencialização e Realização. Virtualização, para Lévy, não se realiza, como imaginávamos, apenas dentro das máquinas computacionais, mas sim num processo de questionamento e problematização dos meios. O Virtual existe.

Lévy contrapõe um quadrívio ontológico, contrapondo as partes: Ordem da criação: Virtualização Vs. Atualização e; Ordem da seleção: Potencialização Vs. Realização. Atualiza-se o Virtual; Realiza-se o potencial.

Virtualizar é: Remontar um inventivo de uma solução a uma problemática, é o questionamento. O Virtual EXISTE.

Atualizar é: a resolução de um problema, Uma solução. É a resposta aqui e agora. O Atual ACONTECE.

Potencializar é: Um conjunto de possibilidades predeterminadas. O Potencial INSISTE.

Realizar é: Um conjunto de coisas persistentes e resistentes. É uma queda de potencial. O Real SUBSISTE.

Os Acontecimentos pertencem ao conjunto da Criação. As substâncias pertencem ao conjunto da seleção.

O potencial e o virtual são pólos latentes, enquanto o Real e o Atual são do Pólos Manifestos.

“O Real seria da ordem do ‘tenho’, enquanto o virtual seria da ordem do ‘terás’, ou da ilusão” (Pág. 15)

“A palavra virtual vem do latim virtualis, derivado por sua vez de virtus, força, potência. Na filosofia escolástica, é virtual o que existe em potência e não em ato.” (Pág. 15)

“Em termos rigorosamente filosóficos, o virtual não se opõe ao real, mas ao atual: virtualidade e atualidade são apenas duas maneiras de ser diferentes.” (Pág. 15)

“O possível é exatamente igual ao real: [mas] só lhe falta a existência. A realização de um possível não é uma criação, no sentido pleno do termo, pois a criação implica também a produção inovadora de uma idéia ou de uma forma. A diferença entre possível e real é, portanto, puramente lógica [e/ou temporal].” (Pág. 16)

“A atualização é criação, invenção de uma forma a partir de uma configuração dinâmica de forças e de finalidades.” (Pág. 17)

“A virtualização pode ser definida como o movimento inverso da atualização [… é] uma mutação da identidade, um deslocamento do centro de gravidade ontológico do objeto considerado: em vez de se definir principalmente por sua atualidade (uma ‘solução’), a entidade passa a encontrar sua consistência essencial num campo problemático.” (Págs. 17-18)

“A atualização ia de um problema a uma solução. A virtualização passa de uma solução dada a um (outro) problema.” (pág. 18)

“A virtualização é um dos principais vetores da criação da realidade.” (Pág. 18)

“O virtual, com muita freqüência, ‘não está presente’.” (Pág. 19)

“[…] o imponderável hipertexto não possui lugar.” (Pág. 20)

“O fato de não pertencer a nenhum lugar [… não] impede a [sua] existência.” (pág. 20)

“A virtualização reinventa uma cultura nômade, não por uma volta ao paleolítico nem às antigas civilizações de pastores, mas fazendo surgir um meio de interações sociais onde as relações se reconfiguram com um mínimo de inércia.” (Pág. 20-21)

“Quando uma pessoa, uma coletividade, um ato, uma informação se virtualizam, eles se tornam ‘não-presentes’, se desterritoralizam. Uma espécie de desengate os separa do espaço físico ou geográfico ordinários e da temporalidade do relógio e do calendário. É verdade que não são totalmente independentes do espaço-tempo de referência, uma vez que devem sempre se inserir em suportes físicos e se atualizar aqui ou alhures, agora ou mais tarde.” (Pág. 21)

“O virtual [não] é [apenas] imaginário. Ele produz efeitos.” (Pág. 21)

“Mas, para os que não andam de trem, as antigas distâncias ainda são válidas. […] De maneira análoga, diversos sistemas de registro e de transmissão (tradição oral, escrita, registro audiovisual, redes digitais) constroem ritmos, velocidades ou qualidades de histórias diferentes.” (Pág. 22)

“A invenção de novas velocidades é o primeiro grau da virtualização” (Pág. 23)

“A aceleração das comunicações é contemporânea de um enorme crescimento da mobilidade física. […] as pessoas que mais telefonam são também as que mais encontram outras pessoas de carne e osso.” (Pág. 23)

O Efeito Moebius: além da desterritorialização, um outro caráter é frequentemente associado à virtualização: a passagem do interior ao exterior e do exterior ao interior.” (pág. 24)

“Como a das informações, dos conhecimentos, da economia e da sociedade, a virtualização dos corpos que experimentamos hoje é uma nova etapa na aventura de autocriação que sustenta a nossa espécie.” (pág. 27)

“Graças às máquinas fotográficas, às câmeras e aos gravadores, podemos perceber as sensações de outra pessoa, em outro momento e outro lugar. Os sistemas ditos de realidade virtual nos permitem experimentar, além disso, uma integração dinâmica de diferentes modalidades perceptivas. Podemos quase reviver a experiência sensorial completa de outra pessoa.” (pág. 28)

“O organismo é revirado como uma luva. O interior passa ao exterior ao mesmo tempo em que permanece dentro.” (pág. 30)

“Ao se virtualizar , o corpo se multiplica.” (pág. 33)

“O texto é um objeto virtual, abstrato, independente de um suporte específico.” (pág. 35)

“Escutar, olhar, ler equivale finalmente a construir-se.” (pág. 37)

“O aparecimento da escrita acelerou um processo de artificialização, de exteriorização e de virtualização da memória que certamente começou com a homonização” (pág. 38)

“O armazenamento em memória digital é uma Potencialização, a exibição é uma realização.” (pág. 40)

“Um pensamento se atualiza num texto e um texto numa leitura (numa interpretação).” (pág. 43)

“Se ler consiste em selecionar [idéias e] em esquematizar, em construir uma rede de remissões internas ao texto, em associar a outros dados, em integrar as palavras e as imagens a uma memória pessoal em reconstrução permanente, então os dispositivos hipertextuais consistem de fato uma espécie de objetivação, de exteriorização, de virtualização dos processos de leitura.” (pág. 43)

“A partir do hipertexto, toda leitura tornou-se um ato de escrita.” (Pág. 46)

“No mundo digital, a distinção do original e da cópia há muito perdeu qualquer pertinência. O ciberespaço está misturando as noções de unidade, de identidade e de localização.” (pág. 48)

“Enquanto objeto virtual, a moeda é evidentemente mais fácil de trocar, de partilhar e de existir em comum que entidades mais concretas como terra ou serviços.” (pág. 52)

“A economia repousa largamente sobre o postulado da raridade dos bens. A própria raridade se funda sobre o caráter destruidor do consumo, bem como sobre a natureza exclusiva ou privativa da cessão ou da aquisição. […] Como a informação e o conhecimento estão na fonte das outras formas de riqueza e como figuram entre os bens econômicos principais de nossa época, podemos considerar a emergência de uma economia da abundância, cujos conceitos, e, sobretudo, as práticas, estariam em profunda ruptura com o funcionamento da economia clássica.” (pág. 55-56)

“O conhecimento e a informação não são ‘imateriais’, e sim desterritorializados” (pag. 56)

“Por que o consumo de uma informação não é destrutivo e sua posse não é exclusiva? Porque a informação é virtual.” (pág. 58)

“As reservas de possíveis, os bens cujo consumo é uma realização, não podem, portanto, ser separados de seu suporte físico.” (pág. 59)

“O trabalho assalariado é uma queda de potencial, uma realização, por isso pode ser medido por hora.” (pág. 60)

“A virtualização nos faz viver uma passagem de uma economia de substâncias para uma economia de acontecimentos.” (pag. 61)

“Todo ato registrável cria, efetivamente ou virtualmente, informação, ou seja, numa economia da informação, riqueza. Ora, o ciberespaço é, por excelência, o meio em que os atos podem ser registrados e transformados em dados exploráveis.” (pág. 63) [Comentário: A isso se baseia completamente toda a estrutura do Google]

“A partir da linguagem, nós, humanos, passamos a habitar um espaço virtual.” (pág. 71)

“O tempo humano não tem o modo de ser de um parâmetro ou de uma coisa (ele não é, justamente, ‘real’), mas o de uma situação aberta. Nesse tempo assim concebido e vivido, a ação e o pensamento não consistem apenas em selecionar entre possíveis já determinados, mas em reelaborar constantemente uma configuração significante de objetivos e de coerções, em improvisar soluções, em reinterpretar deste modo uma atualidade passada que continua a nos comprometer. Por isso vivemos o tempo como problema.” (pág. 71-72)

“Mais que uma extensão do corpo, uma ferramenta é uma virtualização da ação.” (pág. 75)

“A gramática dizia respeito à articulação interna da língua, à manipulação das ferramentas lingüísticas e escriturais. A dialética, em troca, estabelece uma relação de reciprocidade entre interlocutores, pois não há esforço argumentativo que não subentenda uma espécie de paridade intelectual. […] a retórica designa a arte de agir sobre os outros e o mundo com auxílio dos signos.” (pág. 82)

“Ora, o modo clássico de reconhecimento dos saberes – o diploma – é ao mesmo tempo: 1, deficiente: nem todos têm diploma, embora cada um saiba alguma coisa; 2, terrivelmente grosseiro: as pessoas que têm o mesmo diploma não têm as mesmas competências, sobretudo por causa de suas experiências diversas; e 3, não padronizado: os diplomas estão vinculados a universidades ou, no máximo, a Estados, e não há sistema geral de equivalência entre diplomas de países diferentes.” (pág. 91)

A VIRTUALIZAÇÃO DA INTELIGÊNCIA E A CONSTITUIÇÃO DO SUJEITO

“Nós, seres humanos, jamais pensamos sozinhos ou sem ferramentas. […] toda uma sociedade cosmopolita pensa dentro de nós.” (pág. 95)

“Pode-se falar de uma inteligência sem consciência unificada ou de um pensamento sem subjetividade?” (pág. 95)

A INTELIGÊNCIA COLETIVA NA INTELIGÊNCIA PESSOAL: LINGUAGENS, TÉCNICAS, INSTITUIÇÕES

“Chamo ‘inteligência’ o conjunto canônico das aptidões cognitivas, a saber, as capacidades de perceber, de lembrar, de aprender, de imaginar e de raciocinar.” (pág. 97)

“Antes de mais nada, jamais pensamos sozinhos, mas sempre na corrente de um diálogo ou de um multidiálogo, real ou imaginado.” (pág. 97)

“As ferramentas e os artefatos que nos cercam incorporam a memória longa da humanidade. Todas as vezes que os utilizamos, recorremos portanto à inteligência coletiva.” (pág. 98)

“Pela biologia, nossas inteligências são individuais e semelhantes (embora não idênticas). Pela cultura, em troca, nossa inteligência é altamente variável e coletiva.” (pág. 99)

AS QUATRO DIMENSÕES DA AFETIVIDADE

“Sem afetividade, o sistema considerado retorna à insensibilidade, à exterioridade e à dispersão ontológica do simples mecanismo. Um espírito deve ser afetivo, ele não é necessariamente consciente.” (pág. 104) [Comentário: a afetividade é a chave para o século XXI]

A OBJETIVAÇÃO DO CONTEXTO PARTILHADO

“Como um dos principais efeitos da transformação em curso, aparece um novo dispositivo de comunicação no seio de coletividades desterritorializadas muito vastas que chamaremos ‘comunicação todos-para-todos’.” (pág. 113) [Comentário: apesar de concordar com Lévy, devo colocar um ponto em questão: nem toda a comunicação na internet se reflete de muitos-para-muitos. Os blogs são, de certa forma, ainda, uma comunicação um-para-muitos, e a Wikipédia, apesar de ser todos-para-todos, não funciona assim em tempo real.]

“O ciberespaço em via de constituição autoriza uma comunicação não mediática em grande escala que, a nosso ver, representa um avanço decisivo rumo a formas novas e mais evoluídas de inteligência coletiva.” (pág. 113) [Comentário: Wikipedia]

“Como se sabe, os meios de comunicação clássicos (relacionamento um-para-muitos) instauram uma separação nítida entre centros emissores e receptores passivos isolados uns dos outros. As mensagens difundidas pelo centro realizam uma forma grosseira de unificação cognitiva do coletivo ao instaurarem um contexto comum.” (pág. 113)

“No ciberespaço, em troca, cada um é um emissor e receptor potencialmente em num espaço qualitativamente diferenciado, não fixo, disposto pelos participantes, explorável. Aqui, não é principalmente por seu nome, sua posição geográfica ou social que as pessoas se encontram, mas segundo centros de interesses, numa paisagem comum do sentido ou do saber.” (pág. 113) [Comentário: aqui Lévy é extremamente visionário, o mundo, como se sabe hoje, será estruturado através das áreas de interesse, não mais através do meio em comum. É o mercado de nichos crescendo, são as comunidades sendo exploradas, é o homem criando um novo homem, mais semelhante à sua imagem que à de Deus.]

O CÓRTEX DE ANTRÓPIA

“Raciocinar em termos de impacto é condenar-se a padecer.” (pág. 117) [Comentário: ou acompanhamos o ciberespaço agora, transformando-o em fonte de saber coletivo, ou ele reproduzirá a praxe, o mediático, o espetacular, o consumismo: virará uma ‘televisão interativa’.]

[preciso me ausentar agora, mas depois eu completo o fichamento, abraços!]

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